No futebol moderno, ter a bola quase sempre parece sinônimo de controlar o destino de uma partida. Na última quarta-feira, 14 de outubro, diante de 69.039 torcedores no Maracanã, o Palmeiras venceu o Fluminense por 2 a 1 pela ida da semifinal da Copa Libertadores provando exatamente o oposto. Enquanto o time carioca colecionava passes na intermediária, o visitante colecionou gols e voltou para São Paulo a um empate de sua quarta final continental desde 2020.
Os números do confronto parecem saídos de um erro tipográfico estatístico. Em recortes da partida apurados pelo UOL Esporte, o Fluminense atingiu 70% de posse de bola e trocou 801 passes, contra apenas 353 da equipe alviverde. Ao apito final do árbitro argentino Facundo Tello, os dados consolidados registraram 64% de posse e 11 finalizações para os mandantes, que acertaram o alvo apenas quatro vezes, uma a menos do que os sete arremates palmeirenses.
Sem o técnico Abel Ferreira, suspenso após a classificação contra a LDU, e sem o atacante Vitor Roque, lesionado no tornozelo direito, os auxiliares João Martins e Vitor Castanheira desenharam uma armadilha espacial. O Palmeiras alinhou três zagueiros, com Murilo, Gustavo Gómez, recordista isolado com 60 vitórias pelo clube no torneio, e Alexander Barboza, protegidos por três meio-campistas de contenção. Além disso, o colombiano Jhon Arias cumpriu função tática cirúrgica ao fechar o corredor de Guilherme Arana antes de acelerar os contragolpes.
Durante quarenta minutos, a equipe dirigida por Marcão rondou a área paulista com Paulo Henrique Ganso, Nonato e Agustín Canobbio, mas parou no bloqueio central e em defesa de Carlos Miguel com o peito em chute de Hulk. Aos 44 minutos do primeiro tempo, na primeira descida coordenada dos visitantes, Joaquín Piquerez tabelou com Andreas Pereira pela esquerda e cruzou rasteiro. Flaco López antecipou a marcação, contou com falha de Fábio e abriu o placar para anotar seu 23º gol pelo clube no ano.
O roteiro se repetiu na etapa final, apesar das entradas de Hércules, Lucho Acosta e Kevin Serna pelo lado tricolor. O Palmeiras absorveu a pressão com 27 desarmes contra 22 do rival e aguardou o desgaste carioca para dar o segundo bote. Aos 39 minutos do segundo tempo, após defesa parcial de Fábio em chute de Ramón Sosa, Felipe Anderson ajeitou de cabeça e o volante Marlon Freitas, revelado em Xerém, bateu de primeira para fazer 2 a 0.
O confronto parecia liquidado, até que uma hesitação individual devolveu oxigênio à eliminatória nos acréscimos. Aos 47 minutos da etapa complementar, Guga cruzou da direita, o goleiro Carlos Miguel, de 2,04 metros, calculou mal a saída e o jovem Wesley Natã, de 1,69 metro, cabeceou para descontar. O gol tardio não evitou a queda da invencibilidade de 18 jogos do Fluminense como mandante em mata-matas da Libertadores, mas reduziu o tamanho do prejuízo.
Nas entrevistas pós-jogo, os discursos refletiram a distância entre volume estético e eficácia competitiva. Enquanto Castanheira celebrou o pragmatismo defensivo e Arias rebateu os coros de Judas dizendo que parte da torcida sofre de amnésia sobre sua história no clube, Marcão admitiu que há várias situações para corrigir, agravadas pela lesão no joelho do volante Martinelli. Na próxima quarta-feira, 21 de outubro, às 21h30, no Nubank Parque, o Fluminense precisará vencer por dois gols para avançar no tempo normal, enquanto o Palmeiras lembrará que, no mata-mata sul-americano, quem confunde posse com domínio costuma descobrir tarde demais o preço do aluguel.
Por Marlus Pasinato – 17/10/2026 – www.libertadores.com.br

