O futebol, em sua essência mais cruel e fascinante, costuma ignorar as planilhas de estatísticas para premiar o pragmatismo clínico. Na noite desta quinta-feira (19), a Arena da Baixada foi o cenário de um desses “crimes” lógicos: o Athletico-PR amassou, pressionou e controlou, mas quem saiu com os três pontos no bolso foi o Corinthians. Um 1 a 0 que interrompeu a invencibilidade do Furacão e consagrou a resiliência alvinegra em solo curitibano.
O Peso da Responsabilidade e o Pecado de Julimar
O ambiente era singular. Sob a punição do STJD, a Arena pulsava apenas com as vozes de mulheres, crianças e PCDs. Um mosaico vibrante que empurrou o time de Odair Hellmann a um início elétrico. A velocidade de Mendoza e Viveros parecia ter quebrado a espinha dorsal da defesa paulista logo aos 13 minutos, quando Matheus Bidu cometeu um pênalti infantil em Viveros.
Julimar teve o destino do jogo nos pés. Mas, no duelo psicológico contra a trave e a expectativa, o atacante exagerou na força. A bola na arquibancada foi o presságio do que viria: o Athletico teria o volume, mas o Corinthians teria o veneno.
O Lampejo de Garro e a Muralha Hugo Souza
Como em um roteiro de precisão cirúrgica, o castigo veio aos 20 minutos. No único chute ao alvo do Timão em todo o primeiro tempo, Rodrigo Garro provou por que é o cérebro deste time. Após um rebote parcial da defesa, o argentino ajeitou o corpo com a elegância de quem joga de terno e desferiu um petardo de canhota no ângulo de Santos. Um gol de quem não precisa de dez chances para decidir uma vida.
A partir daí, o que se viu foi o “Manual de Sobrevivência Corintiano” sob a batuta de Dorival Júnior. O time abdicou do ataque para se tornar uma fortaleza. E, se a bola passava pela zaga, parava em Hugo Souza. O goleiro operou ao menos quatro milagres, frustrando Esquivel e Mendoza em lances que a torcida já comemorava. Quando Hugo não estava lá, Raniele apareceu para salvar uma bola em cima da linha. A sorte, definitivamente, vestia branco e preto.
Memphis: O Astro Tático
Sobre Memphis Depay, a análise precisa ser honesta: o holandês ainda é um corpo estranho no ritmo frenético de 2026, buscando o ápice físico. Contudo, sua importância foi magnética. Ao atuar como pivô e prender a atenção de Terán e Arthur Dias, Memphis abriu os espaços que Garro soube aproveitar. Ele pode não estar balançando as redes, mas sua presença estabiliza o jovem elenco de Dorival e amedronta defesas adversárias pelo simples peso do nome.
Lições e a Tabela
Para o Athletico, o sinal de alerta acende. Dominar o jogo e criar chances claras — como as desperdiçadas por Viveros — não serve de consolo se a mira estiver desalinhada. O Furacão cai para a 6ª posição e precisa redescobrir o caminho do gol antes que o pelotão de frente se distancie.
Já o Corinthians salta para o 5º lugar com a autoridade de quem detém uma das melhores defesa do Brasileirão (apenas dois gols sofridos em três jogos). A mística de “saber sofrer” na Arena da Baixada — onde o Timão agora soma vitórias históricas — segue viva.
O volume de jogo sem bola na rede é apenas ruído estatístico. O que fica para a história são os pontos na tabela e a frieza de quem sabe converter o caos em vitória.
Por Marlus Pasinato – 20/02/2026


