sábado, 7 março, 2026

O Ocaso da Baixada: A Anatomia de um Furacão Sem Rumo

O Labirinto da Posse Estéril

O futebol tem uma memória curta para as glórias, mas uma paciência inexistente para a estagnação. Na tarde deste sábado, a Arena da Baixada não foi o caldeirão que se esperava. Foi, na verdade, o palco da cristalização de um trauma: o Athletico Paranaense agora soma 980 dias sem vencer o seu maior rival. O gol de Lucas Ronier, logo no início do segundo tempo, não foi apenas um lance isolado; foi a sentença de uma equipe que possui infraestrutura de elite, mas que esqueceu como se compete em um clássico.

A Prisão do Tabu e o Vazio de Viveros

O clima antes do apito inicial já entregava a voltagem do confronto. Enquanto a polícia continha princípios de confusão do lado de fora, dentro de campo o Athletico tentava lidar com um fantasma invisível: a pressão de oito jogos sem vencer o Coritiba.

Para piorar, o time entrou órfão de sua maior estrela. Kevin Viveros, o homem de 5 milhões de dólares, foi liberado para resolver problemas pessoais na Colômbia. Sua ausência expôs uma ferida aberta no planejamento do clube: um elenco milionário, mas desequilibrado, que não possui um substituto à altura para sua referência ofensiva. Renan Peixoto, embora esforçado, sentiu o peso de uma camisa que, naquele momento, parecia feita de chumbo.

A Ilusão da Posse e o Castigo do “Balaqueiro”

O primeiro tempo foi um exercício de frustração para o torcedor rubro-negro. O time de Odair Hellmann teve a bola, ocupou o campo de ataque e empurrou o rival contra a própria área. Mas era um domínio estéril. Foram 16 finalizações ao longo do jogo, e nenhuma delas acertou o alvo. O “quase” de Jadson e a chance desperdiçada por Renan Peixoto foram apenas o prelúdio do que viria.

O castigo veio a cavalo — ou melhor, nos pés de um desafeto. Aos 3 minutos do segundo tempo, o lateral Benavídez cometeu um erro primário na saída de bola. O Coritiba, letal, não perdoou: Lavega cruzou e Lucas Ronier testou para o fundo das redes.

Há um tempero extra de ironia aqui: Ronier foi chamado de “balaqueiro” por Odair Hellmann em 2025. No sábado, o “balaqueiro” deu uma aula de eficiência e calou a Baixada, vencendo o duelo pessoal contra o treinador que o subestimou.

O Enigma Zapelli: Talento em Conserva

Se o Athletico busca um símbolo para sua crise de identidade, ele veste a camisa 10. Bruno Zapelli é, tecnicamente, um grande jogador, mas competitivamente parece um espectador de luxo. Em cinco clássicos disputados, Zapelli não venceu nenhum.

Enquanto o meia rival, Josué, organizava o jogo com autoridade, Zapelli se limitava a toques laterais, fugindo da dividida e da responsabilidade. Os dados de GPS podem dizer que ele correu quilômetros, mas no futebol, a distância percorrida sem propósito é apenas cansaço. A torcida saiu de campo com a certeza de que falta ao argentino a “eletricidade” que transforma um bom jogador em um ídolo de clássicos.

Portilla: A Luz no Fim do Túnel

Nem tudo foi terra arrasada. A entrada de Juan Portilla no segundo tempo trouxe uma dinâmica que o time titular não conhecia. O colombiano jogou como se soubesse o peso daquela camisa: deu o sangue, ganhou divididas e clareou o jogo. Sua atuação foi um recado mudo para a comissão técnica: em um clássico, a raça e a técnica precisam caminhar juntas. Se Portilla entendeu o espírito do Atletiba em poucos minutos, por que os outros não conseguiram em 90?


Avaliação Individual: Quem se Salvou e Quem Afundou

Jogador Nota Análise Crítica
Santos 8.5 O melhor em campo. Evitou uma goleada vexatória com defesa de cinema no fim do jogo.
Mendoza 6.0 O único lampejo de perigo real no ataque. Foi substituído quando ainda era a melhor opção.
Portilla 7.0 Entrou e mostrou como se joga um clássico. Pede passagem no time titular imediatamente.
Renan Peixoto 3.5 O esforço não compensou a falta de pontaria. Perdeu um gol que mudaria a história do jogo.
G. Benavídez 4.0 Sua desatenção custou o jogo. Um erro fatal em um nível de competição que não aceita falhas.
Bruno Zapelli 2.0 Omisso. Um camisa 10 que se esconde em clássicos é um luxo que o Athletico não pode ter.
Odair Hellmann 3.0 Foi engolido taticamente por Fernando Seabra e errou nas substituições ao tirar Mendoza.

O Caminho de Volta

A coletiva de Odair Hellmann, focada em estatísticas de “posse de bola” e “volume”, soou como negação. O Athletico caiu para a segunda posição do Grupo A, mas o problema não é a tabela, é a alma. Sem Viveros, o time é inofensivo; com Zapelli apático, o time é sem criatividade.

Marlus Pasinato – www.libertadores.com.br – 18/01/2026

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