115 ANOS DE LOUCURA: O CORINTHIANS CELEBRA MAIS UM ANO DE UMA HISTÓRIA INCOMPARÁVEL
Um lampião a gás iluminava a esquina das ruas José Paulino e Cônego Martins. Era a noite de 1º de setembro de 1910. Cinco operários, inspirados pela passagem de um time amador inglês pelo Brasil, decidiram fundar sua própria equipe. Anselmo Corrêa, Antônio Pereira, Carlos Silva, Joaquim Ambrósio e Raphael Perrone queriam um clube para o povo. Mal sabiam que estavam dando início a um fenômeno. Nascia ali o Sport Club Corinthians Paulista.
Cento e quinze anos depois, a luz daquele lampião se transformou em uma força que ilumina estádios e corações. O Corinthians não é apenas um clube de futebol. É uma manifestação cultural. Uma prova de resiliência. Uma história de gente que encontrou no esporte uma razão para acreditar. A trajetória do clube do Bom Retiro, bairro operário de São Paulo, confunde-se com a própria história do Brasil no último século.
O nome veio do Corinthian F.C., o time britânico que excursionava pelo país com um futebol vistoso. A inspiração parou por aí. A alma do novo clube era genuinamente brasileira. Era popular, nascida da várzea, dos campos de terra batida onde o futebol se joga com mais paixão do que técnica. O Corinthians foi, desde o primeiro dia, o time dos trabalhadores. Dos imigrantes. Dos que tinham pouco, mas tinham fé.
Essa identidade forjou uma conexão única com sua torcida. Ela não se via apenas como espectadora. Ela se sentia parte do time. A alcunha “Fiel” não surgiu por acaso. É uma descrição precisa de uma devoção que transcende resultados. A torcida do Corinthians não apoia. Ela joga junto. Ela empurra. E, quando preciso, ela invade.
O ano de 1976 permanece como um marco. Na semifinal do Campeonato Brasileiro, o Corinthians enfrentaria o Fluminense no Rio de Janeiro. O Maracanã era a casa do adversário, uma fortaleza. Mas a Fiel decidiu que seu time não jogaria sozinho. Dezenas de milhares de torcedores se mobilizaram. Saíram de São Paulo em ônibus, carros e trens. O destino era um só.
O que se viu naquele 5 de dezembro foi um êxodo. A Rodovia Presidente Dutra se pintou de preto e branco. O Rio de Janeiro foi tomado por uma onda de paixão corintiana. No estádio, a divisão foi surreal. Metade do Maracanã era alvinegra. Mais de 70 mil corintianos cantavam mais alto. O time venceu nos pênaltis. O episódio ficou conhecido como “A Invasão Corinthiana”. Foi uma demonstração de força que o futebol brasileiro jamais esqueceria.
A lealdade da Fiel foi posta à prova muitas vezes. Talvez a mais dura delas tenha sido um longo período sem títulos de expressão. Foram quase 23 anos de angústia. Um jejum que começou em 1954 e parecia não ter fim. Rivais colecionavam troféus. O Corinthians colecionava frustrações. A torcida, no entanto, não abandonou o barco. Pelo contrário. A cada ano, a esperança se renovava.
A redenção veio em 1977. Na final do Campeonato Paulista, contra a Ponte Preta, o sofrimento parecia destinado a continuar. Após duas partidas tensas, o terceiro jogo era decisivo. O Morumbi estava lotado. O gol demorava a sair. A agonia pairava no ar. Aos 36 minutos do segundo tempo, Basílio acertou um chute de dentro da área. A bola estufou a rede. O grito de campeão, engasgado por mais de duas décadas, finalmente ecoou.
Aquele título não foi apenas uma conquista esportiva. Foi uma libertação. Pais que nunca tinham visto o time ser campeão puderam chorar de alegria ao lado de seus filhos. A Fiel mostrava que a espera valera a pena. A fé havia sido recompensada. O Corinthians estava de volta.
A década de 1980 trouxe um novo capítulo de vanguarda. O Brasil vivia sob uma ditadura militar. A repressão silenciava a sociedade. Dentro de campo, porém, o Corinthians gestava uma revolução silenciosa. Liderado por jogadores politizados como Sócrates, Wladimir e Casagrande, surgiu um movimento inédito. Foi batizado de “Democracia Corinthiana”.
As decisões do departamento de futebol passaram a ser tomadas pelo voto. Jogadores, comissão técnica e diretoria tinham o mesmo peso. As concentrações foram abolidas. As regras eram debatidas abertamente. Era um sistema de autogestão em pleno regime de exceção. O lema era claro: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.
O movimento extrapolou os muros do Parque São Jorge. O time entrava em campo com faixas pedindo eleições diretas. A camisa alvinegra se tornou um outdoor pela liberdade. Em 1982 e 1983, aquele time que discutia política e liberdade também jogava um futebol envolvente. Conquistou o bicampeonato paulista. Mostrou que era possível aliar consciência social e sucesso esportivo. A Democracia Corinthiana foi um ato de coragem. Um farol em tempos de escuridão.
A primeira grande glória nacional chegou em 1990. Comandado pelo craque Neto, um camisa 10 de personalidade forte e pé esquerdo calibrado, o Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro. O “Xodó da Fiel” foi o protagonista. Seus gols de falta eram uma obra de arte. Sua liderança inflamava o time. Na final, contra o rival São Paulo, uma vitória por 1 a 0 no Morumbi selou o título. O Brasil, enfim, era preto e branco.
A década de 1990 consolidou o clube como uma potência. Comandado por Vanderlei Luxemburgo e depois por Oswaldo de Oliveira, uma geração de talentos marcou época. Marcelinho Carioca, o “Pé de Anjo”, tornou-se um dos maiores ídolos da história. Rincón, Edílson, Vampeta e Ricardinho formavam um meio-campo avassalador. O resultado foi uma era de conquistas. O clube venceu os Brasileiros de 1998 e 1999. Faturou a Copa do Brasil em 1995.
O ápice veio em 2000. A FIFA organizou o primeiro Mundial de Clubes. O Corinthians, como campeão do país-sede, foi convidado. O torneio reunia gigantes como Real Madrid e Manchester United. Poucos acreditavam no time brasileiro. Mas a equipe mostrou sua força. Chegou à final contra o Vasco, no Maracanã. Após um empate sem gols, a decisão foi para os pênaltis. Dida, o goleiro, brilhou. O Corinthians era o primeiro campeão mundial da FIFA.
A história do Corinthians, porém, é feita de ciclos. A glória é frequentemente seguida pela provação. Em 2007, o clube viveu seu pior momento. Uma campanha desastrosa no Campeonato Brasileiro resultou no rebaixamento para a Série B. A dor foi imensa. A humilhação, sentida por milhões. Mas a Fiel, mais uma vez, fez a diferença.
No ano seguinte, na segunda divisão, a torcida não apenas compareceu. Ela abraçou a causa. Os estádios estavam sempre cheios. O apoio foi incondicional. O time, impulsionado por essa energia, fez uma campanha irretocável e garantiu o retorno à elite. A passagem pela Série B, que poderia ter sido o fim, tornou-se mais um capítulo de superação. Uma prova de que a paixão corintiana se fortalece na adversidade.
O retorno à primeira divisão marcou o início de uma nova era de ouro. A chegada de Ronaldo Fenômeno, em 2009, elevou o clube a outro patamar. Sua presença trouxe visibilidade e títulos. O Corinthians venceu o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil daquele ano. A base para a maior conquista estava sendo construída.
O sonho de todo corintiano era a Copa Libertadores da América. O troféu continental era uma obsessão. Uma ferida aberta por eliminações dolorosas. Em 2012, sob o comando do técnico Tite, a história mudou. Com uma defesa sólida, liderada pelo goleiro Cássio, e um time operário e dedicado, o Corinthians fez uma campanha memorável.
A equipe avançou fase a fase com segurança. Na final, contra o temido Boca Juniors, da Argentina, o roteiro foi perfeito. Um empate em La Bombonera. E uma vitória por 2 a 0 no Pacaembu, com dois gols de Emerson Sheik. A América, finalmente, estava conquistada. E de forma invicta. A Fiel explodiu em uma festa que durou dias.
A celebração mal havia terminado e um novo desafio surgiu. O Mundial de Clubes no Japão. O adversário na final era o Chelsea, campeão europeu. Um time repleto de estrelas. Mais de 30 mil corintianos cruzaram o planeta para apoiar a equipe. A “Invasão” de 1976 se repetia, agora em escala global.
Em campo, o que se viu foi um time valente. Cássio fez defesas milagrosas. A defesa se multiplicou. E, aos 24 minutos do segundo tempo, o improvável aconteceu. Danilo chutou, a bola desviou e subiu. O centroavante peruano Paolo Guerrero, de cabeça, mandou para o gol. O mundo era, pela segunda vez, do Sport Club Corinthians Paulista. Foi a última vez que um time sul-americano conquistou o planeta.
De lá para cá, o clube viveu altos e baixos. Conquistou mais títulos brasileiros, em 2015 e 2017. Venceu um tricampeonato paulista. Mas a essência permanece. O Corinthians continua sendo um clube que desafia a lógica. Um gigante movido por uma força que não se mede em dinheiro ou em estatísticas.
Celebrar 115 anos é celebrar a teimosia de cinco operários. É honrar a lealdade de uma torcida que nunca desiste. É lembrar de Basílio, Sócrates, Neto, Marcelinho, Cássio e tantos outros heróis. É entender que a loucura, para o corintiano, é apenas um sinônimo de fé. A história continua a ser escrita. E a Fiel segue pronta para o próximo capítulo.
Por Marlus Pasinato – 02/09/2025 – www.libertadores.com.br


